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O que Acontece com o Cérebro Quando Dormimos

  • Foto do escritor: Laura Lopes
    Laura Lopes
  • 26 de dez. de 2025
  • 4 min de leitura

Thomas Edison, nascido em 1847, foi um dos inventores mais influentes da história moderna, responsável por mais de mil patentes e por inovações que marcaram o avanço da eletricidade e das comunicações. Em diversas entrevistas, ele afirmava dormir não mais do que quatro horas por noite e dizia que dormir era uma perda de tempo, o que ajudou a consolidar a ideia do gênio incansável que sacrifica o descanso em nome da produtividade.




Você provavelmente já pensou algo parecido em algum momento. Talvez tenha acreditado que, dormindo menos, conseguiria estudar mais, trabalhar melhor ou produzir mais. Mas o que realmente acontece quando viramos a noite trabalhando, ignoramos o cansaço e privamos nosso corpo de um sono adequado?


Na maioria das vezes, o efeito é exatamente o oposto do esperado. A produtividade cai, o raciocínio fica mais lento e a capacidade de concentração diminui.


Por que o sono sempre chamou a atenção da ciência?


Se dormir não fosse necessário, a evolução provavelmente teria encontrado uma forma de eliminar essa necessidade. Dormir é um comportamento arriscado do ponto de vista evolutivo, especialmente para animais que vivem na natureza. Um animal adormecido está mais vulnerável a predadores.


Ainda assim, nenhuma espécie conhecida deixou de dormir completamente. Até mesmo os golfinhos, que precisam subir à superfície para respirar, não escapam dessa regra. Eles desenvolveram a capacidade de dormir com apenas metade do cérebro por vez, enquanto a outra permanece alerta, indicando que o sono só pode cumprir uma função biológica essencial.


Por muito tempo, acreditou-se que dormimos apenas para evitar o cansaço. Hoje, essa explicação é considerada simples demais.


O que acontece no cérebro enquanto dormimos?


Durante o sono, o cérebro permanece extremamente ativo. Estudos mostram que ele não apenas continua funcionando, como realiza tarefas fundamentais para nossa saúde mental e cognitiva.


De acordo com o National Institute of Neurological Disorders and Stroke, o sono é essencial para a comunicação entre os neurônios. Durante esse período, o cérebro reforça aprendizados recentes, revisita memórias e fortalece conexões neurais. É como se ele organizasse as informações adquiridas ao longo do dia, decidindo o que deve ser mantido e o que pode ser descartado.


Além disso, pesquisas recentes sugerem que o sono desempenha uma função de “limpeza” no cérebro, removendo toxinas que se acumulam enquanto estamos acordados. Esse processo é fundamental para a saúde cerebral a longo prazo.


O ciclo do sono e o papel do sono REM


O sono não é um estado único. Ele ocorre em ciclos, que se repetem ao longo da noite, e cada fase cumpre uma função específica.


Uma das fases mais importantes é o sono REM, sigla para Rapid Eye Movement. É nesse estágio que a maioria dos sonhos acontece. Curiosamente, medições de ondas cerebrais mostram que, durante o sono REM, a atividade do cérebro é muito semelhante à de quando estamos acordados. Em outras palavras, o cérebro parece desperto, mesmo com o corpo completamente relaxado.


Durante essa fase, o tronco encefálico envia sinais que inibem os movimentos musculares, impedindo que a pessoa “encene” seus sonhos. Ao mesmo tempo, o tálamo volta a se ativar, enviando ao córtex cerebral imagens, sons e sensações que dão forma aos sonhos.


Memória, aprendizado e criatividade


Enquanto dormimos, duas regiões do cérebro trabalham em conjunto de forma intensa: o hipocampo e o neocórtex. O hipocampo está ligado à formação de novas memórias, enquanto o neocórtex é responsável pelo armazenamento de longo prazo e pelo pensamento consciente.


Durante o sono, essas áreas revisitam experiências recentes e selecionam quais memórias devem ser consolidadas. Esse processo costuma levar em conta o peso emocional das experiências, o que ajuda a explicar por que eventos emocionalmente marcantes são lembrados com mais facilidade.


Esse funcionamento também ajuda a entender os sonhos estranhos e desconexos que temos. Eles podem ser o resultado dessa reorganização de memórias e emoções.


Então Edison dormia pouco mesmo?


O caso de Thomas Edison costuma ser citado como prova de que é possível dormir pouco e ainda assim ser altamente produtivo. O que muitas vezes não é mencionado é que Edison tinha o hábito de tirar cochilos frequentes ao longo do dia. Somados, esses períodos de descanso se aproximavam das horas de sono recomendadas.


Estudos posteriores mostraram que o curto período entre a vigília e o sono profundo pode, de fato, estimular a criatividade. No entanto, dormir pouco de forma crônica não traz benefícios criativos e causa prejuízos significativos ao cérebro.


A privação de sono afeta diretamente a atenção, o tempo de resposta e a capacidade de aprendizado. Pessoas que dormem pouco processam informações mais lentamente e têm maior dificuldade para tomar decisões rápidas.


Além disso, o impacto emocional é significativo. A falta de sono intensifica distúrbios emocionais já existentes, aumenta a impulsividade e dificulta o controle das emoções.


A longo prazo, dormir mal está associado a um maior risco de obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares, depressão e problemas neurológicos. Em crianças e adolescentes, os efeitos são ainda mais preocupantes. Estudos mostram que a privação de sono nessa fase da vida aumenta comportamentos impulsivos e está relacionada a um maior risco de depressão e suicídio.


Afinal, quanto devemos dormir?


A necessidade de sono varia de acordo com a idade e entre indivíduos da mesma faixa etária. Ainda assim, a maioria dos adultos precisa de cerca de sete a nove horas de sono por noite para manter o cérebro funcionando de forma adequada.


Dormir bem não é luxo, nem perda de tempo. É uma necessidade biológica fundamental.


Conclusão

Vivemos em uma época que glorifica a produtividade constante e subestima o descanso. No entanto, a ciência deixa claro que dormir é essencial para aprender, lembrar, criar e manter a saúde mental e emocional.


Se o sono não fosse importante, a evolução teria dado um jeito de eliminá-lo. O fato de ele ter sido preservado ao longo de milhões de anos é, por si só, uma das maiores provas de sua importância.


Dormir não nos afasta da produtividade. Pelo contrário, é o que a torna possível.

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