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A Dama das Sombras III

  • Foto do escritor: Laura Lopes
    Laura Lopes
  • 13 de jun. de 2025
  • 3 min de leitura

POV 

CRISTIAN

23/Jun


Acordo com o sol batendo no meu rosto, e demoro pouco para lembrar onde dormi ontem. Sinto meu estômago revirar ao pensar no que devo fazer, pois apesar de tudo eu queria continuar aqui, consolando Nina nesse momento difícil, ajudando ela a passar por isso de alguma forma. Ela já aguentou coisas demais.

Porém, algo que Nina me revelou na noite passada acabou me dando uma pista para um possível suspeito, e eu preciso ir atrás disso, pelo Thiago. E pela Nina. 

Em nossas conversas ontem, ainda surpresa com o fato de se tratar de um assassinato, Nina alegou que aquilo não fazia sentido, pois Thiago não tinha inimigos. Não que ela soubesse. 

“Não que eu saiba”

Isso me fez lembrar da pior coisa sobre Thiago, que nem Nina, e nem qualquer outra pessoa, sabe. Thiago a estava traindo com uma colega de trabalho. Devo prestigiar a cautela com a qual os dois mantêm essa relação, apesar de continuar considerando tudo bastante repugnante.

Dirijo até a delegacia, enquanto tento manter a cabeça no lugar. Não gosto de ter saído de fininho da casa de Nina, como se eu não quisesse lhe dar adeus devidamente, mas preciso resolver isso depressa, e ainda não tenho coragem para encarar seus olhos quando eu precisar admitir o que Thiago estava fazendo a ela. E, o pior, contar a ela que eu sabia de tudo e que não a alertei antes, que eu permiti que ela vivesse uma mentira.

Chegando a delegacia, solicitei falar com um dos policiais responsáveis pelo caso, Ted. Fui recebido depressa, e relatei o que eu sabia sobre o caso de Thiago, e sobre o marido da amante, Sandro, ressaltando minha preocupação de que ele tivesse deixado a raiva o dominar, ao descobrir sobre a traição. 

— Conheci Sandro há alguns anos — revelo aos policiais as provas de comportamentos que poderiam ser úteis para o caso — Éramos colegas de trabalho quando eu ainda morava aqui. Ele nunca soube controlar a raiva ou a inveja, sabe? Quando percebeu que eu estava me saindo melhor do que ele no serviço, ele acabou armando para que eu fosse demitido.

"Sei o que isso pode parecer, mas vocês podem pedir para qualquer pessoa que trabalhou conosco, eles confirmariam o caso. Todos sabiam sobre o ocorrido, mas eu resolvi simplesmente esquecer, pois já tinha planos para começar meus estudos em Florianópolis no ano seguinte."

Respondi a todas as questões por mais algumas horas, e então, fui liberado da delegacia.


Mais tarde, recebemos as notícias sobre as investigações. A casa de Sandro foi revistada, onde apreenderam seu celular e conferiram, no histórico de navegação, a localização do bar Rasgo, onde o crime fora cometido. Nas conversas, duas mensagens de um número desconhecido haviam sido enviadas em um horário próximo da morte, e foram deletadas pouco depois. 

Imagens das câmeras de segurança indicaram que Sandro havia realmente saído com o carro em direção ao bar, esperando encontrar a mulher e o amante lá, exatamente da forma como aconteceu. Talvez a intenção inicial não fosse acabar com tudo, porém a raiva que um homem pode sentir, quando incontrolada, o leva para caminhos alternativos, como este. 

Sandro negou a maioria das alegações, porém o mandado de busca em sua casa revelou que a arma do crime estava em sua posse, uma adaga curta e portátil, com desenhos em curvas espirais subindo do punho até o centro da lâmina. No punho, mais detalhes em espirais e, no centro, o contorno livre de uma caveira.

Em pouco tempo, Sandro iria para a cadeia, pagar por tudo o que fez, e Nina poderia finalmente continuar com sua vida. Me alegrava pensar que ela poderia voltar a ser ela mesma, a Nina antes do Thiago. Apesar de ser meu amigo, eu desprezava como ele fazia mal a ela, e passei a me sentir impotente por não conseguir ajudá-la.

Mas nada disso importa agora, que tudo se resolveu. Fico feliz pela liberdade iminente no caminho de Nina, apesar de toda a mágoa que ela vai sentir pelo luto, acredito que esse caminho vai acabar se provando melhor para ela. E talvez para mim também.


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