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A Dama das Sombras II

  • Foto do escritor: Laura Lopes
    Laura Lopes
  • 11 de jun. de 2025
  • 3 min de leitura

POV 

THIAGO

21/Jun


Despertei pontualmente às 7 horas e 30, com o cheiro habitual do café que Nina sempre prepara para mim. Desço as escadas e a encontro finalizando meu prato de café da manhã, posto em frente ao assento que me dá vista para o lado de fora do terreno de minha casa, assim como em todos os outros dias.

Entretanto, logo noto algo que não é habitual. O silêncio que minha esposa me reserva nesta manhã cinzenta torna-se sólido com o passar dos minutos, enquanto mantemos nossos narizes empinados deliberadamente, cada um esperando que o outro ceda por primeiro, que o outro verbalize as primeiras palavras. Não suporto quando ela faz isso, agindo como se fosse uma criança, esperando que sua birra tenha algum efeito sobre mim que não de detestar ainda mais a ideia deste destino que escolhi.

Estamos casados há dois anos, e a cada momento que passa, essa insolente se torna mais ingrata por tudo o que proporciono a ela. Eu faço de tudo para que ela se sinta bem, mas nem mesmo um sorriso recebo. Ao invés disso, ela me afronta com ingratidão e ignorância, até o momento em que finalmente explodo, sem aguentar suas promessas quebradas e sua falta de esforço em me ver como um bom marido para ela. Grito e, às vezes, passo dos limites. E então nos encontramos aqui, onde o silêncio se ergue como uma muralha, parte de nossa fortaleza, que se prova cada vez mais impenetrável.

Dane-se. Passo o resto do dia pensando nela. No trabalho, quase não consigo parar de imaginá-la em meus braços ao fim do dia. Não consigo nem disfarçar e ela me flagra diversas vezes a observando, como se ela fosse uma dama que eu só tenho direito de me imaginar chegando perto. Mas, em pouco tempo, estarei com ela, e poderei tê-la. 

Cristian, meu amigo, abomina que eu ainda me aventure a trair minha mulher com a Emília. Hoje, mais cedo, ele decidiu que seria proveitoso me confrontar quanto a isso. 

— Quando você vai deixar de ser um babaca mentiroso? — explodiu Cristian, que me encontrou na rua de casa, indo em direção ao trabalho.

— Vou pensar nisso enquanto procuro o fundo do copo no bar do Rasgo hoje a noite com ela — articulei, com um sorriso maldoso que me rendeu uma careta da parte dele.

— Então é isso? Você leva sua namorada para curtir uma festa, e deixa sua esposa em casa, sozinha e preocupada? Você não consegue se dar conta do mal que faz a ela. Nina não merece alguém como você — choramingou Crist. 

— Nina não se preocuparia com o meu atraso nem mesmo se eu passasse a noite fora. E se acha ela tão incrível, por que não a pega para você e a leva embora? — ironizei, na tentativa de mascarar minha irritação, mas, percebendo o olhar constrangido em sua face, acrescentei — Você a quer, não é? Daí o motivo de tanto afinco em me convencer a ser honesto com a pobre Nina, que escolheu o monstro e acabou partindo o coração do garotinho Cristian.

— Você é um tremendo babaca — rosnou ele, entredentes.

— Certo. Vou me atrasar para o trabalho. Até mais tarde, perdedor — zombei, já dando partida no carro.


Enfim, nada disso importa agora que estou no Rasgo, com Emília. Após um longo dia de trabalho, raiva e desejos reprimidos, estar aqui com ela é como usar uma droga que te faz esquecer de como os problemas são difíceis de resolver. 

Entretanto, ao me virar da cadeira para ir ao banheiro, eu o avisto ali sentado, nos encarando. Fico paralisado, sem conseguir ter uma reação decente, até que ele começa a caminhar em minha direção.


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